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HIP-HOP E A OSTENTAÇÃO DA COUVE-FLOR

27 Jan 2018

 

Sabe aquele momento, depois da melhor apresentação, em que os artistas se juntam e procuram o primeiro bar pra beber e beber, comer o maior lanche e as porções gordurosas e no outro dia todo mundo troca mensagens de ressaca dizendo: Nossa, preciso parar com isso, não aguento mais, preciso me cuidar!?

 

Agora imagine Quincy Jones (sim, ele mesmo!), Fat Joe, Common e outros artistas do hip-hop nos Estados Unidos, trocando essa ideia e refletindo uma vida saudável, firmando cambiar o discurso de ostentação e consumo, por vídeos de caminhadas, meditação e fotos de pratos vegetarianos.

 

Esse é o mote do documentário “Feel Rich: Health Is the New Wealth” (Sinta-se rico: a saúde é a nova riqueza), produzido por QDIII (Quincy Jones III), que está disponível na Netflix desde agosto de 2017. O filme apresenta depoimentos de vários artistas e atletas que divulgam suas práticas de bem-estar físico e espiritual, a partir de uma relação direta com o hip-hop e a comunidade afro-latina nos Estados Unidos.

 

A narração inicial do documentário questiona a referência do hip-hop nas comunidades, “onde muitas crianças crescem sem uma figura paterna presente, muitos rappers acabam assumindo esse papel de exemplo e de referência masculina e sendo assim, porque não usar essas referências como exemplos de melhores hábitos de vida?”.

 

Nem preciso dizer que esse paralelo hip-hop/comunidade é latente nos guetos brasileiros, e o quanto a cena daqui se espelha nas rimas, danças, cores e batidas norte-americanas, mas pra além do cenário artístico alguns dados apresentados e discutidos em “Feel Rich” são parecidos com a situação dos bairros das periferias urbanas, como de São Paulo, por exemplo.

 

Nas quebradas daqui, onde vive a maior parte da população negra e ameríndia, estão as pessoas com maior propensão a doenças cardíacas, diabetes e pressão arterial alta por conta da má alimentação. Até o inicio dos anos 90, as quebradas mantinham uma cara mais rural, casas com quintais, hortas e pés de frutas, mas ao longo dos anos, o verde e o consumo de vegetais diminuíram e uma onda de doenças, farmácias, fast-foods e condomínios são mais presentes que as árvores, dependendo de onde você circula.

 

O crescimento urbano, voraz e desigual, mudou a referência alimentar nas periferias. Cultivar a própria horta é algo sem espaço físico e mental na convivência, mas quando “tudo era cheio de mato” a natureza ajudava a equilibrar a saúde. Em “Fell Rich”, há uma análise sobre como as famílias afro-americanas se distanciaram da agricultura comunitária e o impacto disto, pois esta juventude será a primeira a viver menos que seus pais, por causa dos altos índices de diabetes e obesidade infantil.

 

Em outra passagem do filme, o produtor QDIII ilustra imagens do continente africano e relaciona o sorriso das pessoas com o tema em questão e apesar de sustentar o risco estereotipado “do povo que sofre mas é feliz”, é preciso considerar que este sorriso também tem fundamento na aproximação ancestral do povo negro com a natureza e, logo, com um sentimento de alegria eminente.

 

Não é simples debater alimentação saudável na quebrada, pois a geração atual é a primeira que consome carne com mais frequencia e desde muleque aprendemos que nossa saga de trabalho pesado carece de uma “comida forte”, ou seja, com muita gordura animal e cheia de carboidratos, e que fartura, ou melhor, a geladeira entupida de industrializados e congelados é sinonimo de conquista. Em “Feel Rich”, o rapper Fat Joe confirma o quanto essa ideologia de sucesso e comilança doentia foi assumida pelo hip-hop, e que depois de perder muitos amigos, entre eles seu principal parceiro Big Pun, resolveu mudar seus hábitos, com pratos mais leves e uma rotina de exercícios.

 

Um exemplo de destaque no filme é o casal Stic.Man (Dead Prez) e Afya Ibomu, que demonstram como sua família vive uma prática holística, baseada no veganismo e na meditação. Ambos encabeçam ações que relacionam hip-hop, saúde e espiritualidade. Stic também relata no artigo “Check Yourself Before Your Wreck Yourself: How Hip Hop Went Vegan”, que entre viagens e sessões de estúdio, estava sobrevivendo com fumaça, fast-foods e cachorro-quente, quando foi diagnosticado com gota, então sua esposa o encorajou a realinhar sua dieta. Agora, Stic ostenta seu jardim comunitário e ilumina seu Instagram com fotos de hambúrgueres veganos e wraps de tomate. Pra ele, o fato de alguns artistas de milianos como Rakim e Big Daddy Kane serem próximos da crença muçulmana (muslims) e contra o consumo de carne de porco, por exemplo, também é uma premissa da sua compreensão sobre alimentação saudável.

 

Esses artistas estão empenhados em utilizar sua visibilidade pra propagar uma ideia de vida saudável que contribua com as pessoas e os lugares com os quais eles se relacionam, pois como cita Ron Finley, entrevistado do filme, responsável por uma horta urbana, não aterrorizar sua comunidade e cultivar plantas são atitudes verdadeiramente gangsta!

 

Apesar das semelhanças entre o hip-hop de lá e de cá, percebo que os assuntos relacionados ao não consumo de carne, no geral, parecem ideia-fraca-de-playboy, pois bem na hora que a quebrada consegue comprar uns bifes, vem a sugestão pra que abdiquemos do que nos foi negado. É fato que nos becos e vielas, onde o hip-hop é soberano em discursos e praticas de resistência e liberdade, estamos reféns da pressão alta, dos comprimidos e do combo do Rei do Hambúrguer.

 

Ainda assim, ao assistir “Feel Rich”, me recordei de iniciativas que estão no seio das periferias, da cultura negra e do hip-hop em São Paulo como o espetáculo “Sangoma” da Capulanas - Cia de Arte Negra, que apresenta a relação das mulheres negras com a dor e a cura; as horticulturas da Associação Capão Cidadão; da Comunidade Quilombaque, as hortas e espaços verdes de algumas escolas públicas e as dicas que o poeta Binho fala entre uma poesia e outra no Sarau do Binho ou nas prosas que ele participa mundo afora. Além disso, duas referências do hip-hop nacional, Dj KL Jay (Racionias Mc´s) e o rapper Rincón Sapiência são assumidamente vegetarianos.

 

Essas iniciativas são indícios de que a reflexão e a prática de hábitos saudáveis, consolidado por parte dos artistas nos Estados Unidos, tende a reverberar com mais força em nosso contexto, pois se a ideologia e a estética do hip-hop de lá sempre foram referência pro movimento brasileiro, eis que surge uma deixa importante pra essa troca se fortalecer e arejar nossos guetos em busca de melhores dias.

 

Trailer do filme  Feel Rich

 

 

 

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