Páginas de fumaça

 

 

Não precisa morrer pra ver Deus

Não precisa sofrer pra saber

O que é melhor pra você…

 

Criolo – Não existe amor em SP

 

 

 

            Um lance marcante, anos atrás, foi participar de uma prática em que a intenção era colocar fogo nas memórias negativas que eu carregava no peito. Sabe aquela bigorna que vem forte e fica proseando e quanto mais o pensamento flui ela dói e deixa a gente cansado e triste? Pois é, escrevi essas memórias num papel, pra materializar fora da casca e virar cinza e ventania.

        Terminei a prática mais leve e teve gente que até chorou por tirar essa inflamação da vida, e sem conseguir desaguar, não acessei a imensidão dessa limpeza no mesmo tom, faltou empatia, talvez. Só quem já tirou pus de um furúnculo sabe qual é o sentido. Por isso, até queimei minhas brisas, mas não fiz um apagamento largo como as outras pessoas. No fundo sabia que aquela angústia saiu da minha cachola, mas não deixou de existir, ela deu um até logo, encontrou uma vibração compatível e se instalou em outra pessoa por atração. Quando a fumaça subiu, troquei de paranoia e aquelas criações mofadas ficaram no ar, nas ondas da vida, pra entrar em fase em outra mente. Já desconfiava.

             Ultimamente tenho canalizado pela literatura uma aproximação com a física quântica, mirando a vida por outras bordas dum mesmo prisma. E eu, que sempre fui chapado nas ciências humanas, de primeira só reconheci distâncias, mas aos poucos um saber tem abraçado o outro. Venho aprendendo e experimentando que o passado nunca deixa de existir, tudo permanece disponível no universo e se propaga infinitamente pra ser acessado por quem busca e atrai aquela informação. A história é cíclica e a gente é um campo energético de atração dessa espiral.

           O que existe, existiu ou existirá é energia viva, facinha pra tocar no seu radinho, é só sintonizar frequência que deseja, entrar em fase com o que é criado pela força do pensamento. Seja expansivo (pensou, sentiu, soltou, criou, atraiu) ou denso (pensou, resistiu, tensionou, criou, atraiu). Assim é possível se livrar (e atrair) energias desagradáveis ou canalizar energias saudosas, que se perderam com o tempo, por desgaste ou pela fúria, ou acessar o que ainda nem foi conhecido, invenções que podem afundar o pé no espinheiro, ou assentar a sola no chão fértil pra aterrar bons caminhos.

             Quando você não escolha sua sintonia, fica numa tendência forte de entender o destino como fruto da própria condição e (mesmo que não queira) recebe a força de quem inventa com consciência pra condicionar a vibração alheia. Ao contrário, se você cria conscientemente e inverte (e não resiste ou afirma) o indesejável, sua realidade se torna um campo de pertencimento, potência criativa da individuação.

           

            Sabe aquelas histórias que só ouvimos dizer, que nossos mais velhos contam e recontam e que mesmo sem ter vivido a gente cria, imagina, sente e acessa, entra em fase com o flash back? Como no cartaz do Baile Nostalgia colado no ponto do busão, anunciando que “os bons tempos voltaram”, pois se não colar no baile, nunca vai saber qual é o ritmo desse gingado, nenão?

           Na base de chicote e caravela aprendemos que passado é aquilo que faz morada atrás e o futuro aponta seta pra frente, mas na intenção cabocla o futuro é atrás, vibra nas costas, no inédito e o passado é pra frente, na invertida, é aquilo que a gente consegue ver, pois já aconteceu, como a fumaça que subiu, mas continua como espelho, pronta pruma projeção real. Toda fumaça é fim e eternidade, depende da mirada.

           Como ensina o sagrado senhor mensageiro, seguimos na possibilidade de jogar uma pedra hoje, pra acertar o alvo de ontem, uma coisa de cada vez, tudo ao mesmo tempo agora, pois um chapéu de duas cores, pode ser de uma cor só, o que muda é dimensão que você acessa e qual a trilha escolhida pra seguir nesta encruza.

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