Bença Tias, gratidão pelo carnaval!

          Não me leve a mal, hoje é carnaval, e carnaval me lembra barracão, barracão lembra terreiro, terreiro lembra batuque e batuque lembra samba. Na casa da minha dedicação, chamada Ogum Vence Demanda, a maioria dos freqüentadores, inclusive eu, chamam nossa zeladora de Tia. Tia Valda é quem cuida e orienta, com muito carinho da nossa caminhada espiritual e sempre que apresento ou falo dela as pessoas perguntam por que chamo ela de Tia e não de Mãe.

          Nunca perguntei o motivo de chamá-la assim a ninguém da casa, nem mesmo a ela. A história conta que muitas sacerdotisas que seguem a tradição dos Orixás ficaram conhecidas como Tias no Brasil, umas das mais famosas é a Tia Ciata, no Rio de Janeiro, considerada uma das principais incentivadoras do samba carioca, depois de abrir as portas de sua casa de axé pra reuniões de sambistas quando a prática era proibida por lei no início do século XX.

      Tia Ciata era umas das Tias Baianas, senhoras negras que, na maioria dos casos, eram yalorixás do Candomblé, deixaram Salvador por causa de perseguições e foram pro Rio de Janeiro, e também pra São Paulo, a partir da última década do século XIX. A existência da ala de baianas nas escolas de samba é uma referência à importância dessas senhoras pra história e desenvolvimento do carnaval.

            Outra memória é a saudação que o escritor Plinio Marcos faz na abertura do disco “Plínio Marcos em Prosa e Samba”, em que ao saudar Dona Sinhá, fundadora do Cordão Barra Funda, que depois se tornou a Camisa Verde e Branco, Dona Madrinha Eunice da Lavapés, escola tradicional do bairro do Glicério, e Dona Donata, conhecida como o gogó da avenida, Plínio diz “Abença Tias e licença que eu vou falar do Samba da Paulicéia”.

         No caso de Dona Madrinha Eunice, li que ela era adepta da Quimbanda e definiu as cores da Lavapés como vermelho e branco pra homenagear o patrono da escola, Exu Veludo. Além disso, o símbolo da escola é a imagem de uma baiana em alusão a história das Tias. Dona Eunice nasceu em Piracicaba e teve sua iniciação musical no Batuque, que milianos é celebrado em festas pra N.S. do Rosário e pra São Benedito em diversas cidades do interior de SP e representa a semente do Samba Paulista. 

           Vale lembrar que o carnaval em SP, no sambódromo, tem abertura com a passagem do Afoxé dos terreiros de Candomblé, pra emanar boas energias às escolas e ao público que curte o carnaval na avenida, em outra ponta firme entre o sagrado e o samba.

         Talvez que o Carnaval seja isso, uma pausa, em que pedimos licença aos deuses pra celebrar a vida. Como escreveu Lima Barreto (que nem de longe era um simpatizante da festa) “O carnaval é a expressão da nossa alegria. O ruído, o barulho, o tantã espancam a tristeza que há nas nossas almas, atordoam-nos e nos enchem de prazer”.

           Assim como Lima, também não sou um folião convicto, não sigo a risca o horário dos blocos, às vezes nem assisto o desfile na TV, fico mais na bola de meia. Antes, gostava de ir aos ensaios da Prova de Fogo, escola de Pirituba, cheguei a desfilar e assistir da arquibancada uma vez, e nada mais, gosto das histórias, da poesia das músicas, da batucada de carnaval que embala o jogo de bola no terrão.

            Hoje, como filho atento do senhor das palhas, fico ligeiro no depois, na abertura das porteiras, na troca de idéia com as energias sutis liberadas a transitar com a gente nesse período e que mesmo depois do carnaval ficam de prosa com a nossa pineal. Nessa hora agradeço as Tias por nos ajudar a mediar essas passagens, por serem ponta de lança no Batuque e na arrumação da casa depois da folia, porque agora é contra-egum no braço e samba no pé, assim que elas ensinam, assim que a Tia Valda me ensinou, assim que é.

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