Literatura Periférica e o lodo no meio do caminho

 

 

A questão é: Como ter um plano eficaz e digno sobre o livro e a leitura na cidade, se as iniciativas que já realizam os objetivos dessa projeção não são valorizadas?

 

Março/2015

 

Michel Yakini

 

Na última década os Saraus que acontecem aos montes nas quebradas de Sampa têm firmado ações de incentivo à leitura, livros independentes, práticas educativas, bibliotecas comunitárias e articulações diversas para ampliar o acesso à literatura.

O verbo que ecoa nos becos teima em arrancar os espinhos-invisíveis dos livros. Ações com os Saraus da Cooperifa e do Binho são referências que (re)significaram a decadência dos butecos e consolidaram uma cena literária, inspirando outros arrabaldes sem espaço na vitrine jabá das editoras-empetecadas.

No dia 12 de novembro de 2013, vários coletivos que representam essa cena estiveram no encontro Existe Diálogo em SP- Saraus, com o então secretário municipal de cultura Juca Ferreira. A intenção era diminuir o fosso entre a secretaria e os articuladores/as dessas iniciativas.

Uma carta foi lida e entregue ao secretário e reivindicava, entre outras coisas, a continuação e ampliação do programa “Literatura Periférica - Veia e Ventania nas Bibliotecas de São Paulo”, que é realizado desde 2011, numa parceria entre o Sistema Municipal de Bibliotecas e alguns Saraus. O programa prevê a contratação dos grupos para realizar apresentações e mediação de leitura nos seus respectivos bairros.

Um dos encaminhamentos sugeridos era a criação de um edital público, que pudesse abrir margem para outros coletivos participarem do programa e atender mais regiões e equipamentos culturais para além das bibliotecas. 

Somente um ano depois, após pressão realizada pela articulação dos Saraus na Câmara dos Vereadores, foi garantido R$ 1,8 milhões para o “Veia e Ventania”, mas até o momento prevalece o lodo no caminho e nada de edital, contratação ou algo que garanta a continuidade do programa. Crise, cortes e contingenciamentos são a bola da vez na fala emperrada da burocracia para justificar o fato.

Essa indefinição sobre a ampliação e continuidade do Programa “Veia e Ventania”, é incoerente com a elaboração do PMLLLB* (Plano Municipal de Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca) na cidade, que vem na linha do Plano Nacional*. 

A questão é: Como ter um plano eficaz e digno sobre o livro e a leitura na cidade, se as iniciativas que já realizam os objetivos dessa projeção não são valorizadas?

As quebradas têm intimidade com a palavra não é de hoje. Basta revisitar nossa história, desde os provérbios que sobreviveram nos navios negreiros, na saliva sangrenta que regou as raízes daqui, que versou nos terreiros, na capoeiragem, no samba, na embolada e repente, nos improvisos do hip-hop e nas batalhas de poesia (Slams). Tudo na contramão do serviço público chulézento que vivenciamos.

E mesmo a escrita e a leitura oferecida feito um farelo envenenado, temos uma prosa firmada na Imprensa Negra, no início do século XX, nos cordéis vindos nos paus de araras nordestinos e nas letras de Luiz Gama, Solano Trindade, Carolina de Jesus e da geração Cadernos Negros que demonstram um revide antigo.   

Nossa ciranda faz da palavra e do livro um ato de ousadia, de identidade, semeação e horizontes dignos, e isso precisa ser considerado por qualquer lei ou plano que se tenha. Valorizando os ventos antigos, seja por políticas de fomento, incentivos ou premiações, mas sem que prevaleça o ego oficial patenteando o “novo”.   

A cultura é (e sempre foi) nosso fio de energia, pois a educação tá planejadinha pra manter um exército de analfabetos, a saúde inala o bolor da urgência marcada pra daqui 5 meses, a habitação se edifica com bombas de gás e reintegração de posse, a segurança segue, protegendo o “cidadão de bem” da “atitude suspeita”, e o casco da nossa indignação inchando... inflamado de tanto pus.

 

Por isso, é fundamental que a Secretaria de Cultura em São Paulo, em nome do atual secretário Nabil Bonduki articule com mais ação junto aos Saraus de SP, pra amenizar as náuseas de tantas reuniões e reivindicações repetidas e faça valer o que está florido e fértil. Que coloque em prática a promessa-fantasia que deixa um bucado de lodo na sola e dificultam nosso movimento.  

 

Michel Yakini é escritor e produtor cultural.

www.michelyakini.com

 

*Para saber mais sobre o PNLL (Plano Nacional de Livro e Leitura) clique aqui e leia o artigo do escritor Rodrigo Ciríaco, representante da sociedade civil no Conselho Diretivo do plano.

*Para conhecer a discussão sobre o PMLLLB clique aqui e visite a página do grupo de trabalho.

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