Hola Papa Francisco, posso ir ao banheiro?

 

Crônica reproduzida pelo blog do Sarau Elo da Corrente no link - acesse

 

para Maria Eugenia Herrero

 

06/11/2015

Por Michel Yakini

 

            Quando houve a escolha de um Papa argentino, fiquei comparando com a quebra de paradigmas que a América do Sul protagoniza no século XXI, em que partidos socialistas e populares ganharam as eleições no Brasil, Bolívia, Argentina, Uruguai, Venezuela e Equador, em que mulheres como Dilma, Cristina e Bachelet, foram as primeiras presidentas do continente e pensei que um Papa latino vai na mesma linha de novidades.

 

            Em Cuba, mesmo com toda desconfiança em relação aos Estados Unidos, boa parte das pessoas viu com bons olhos a mediação do Papa Francisco, no diálogo com o Barack Obama, e isso culminou na chegada ovacionada de Bergoglio em Havana, sendo recebido com honras por Raul e Fidel Castro. Quem diria?

 

            Durante a Copa de 2014, foi marcante ouvir o narrador argentino Alejandro Fantino vibrando um gol de Messi, enquanto esbravejava “Goleeeee!!! Eu tenho o Papa, vocês não tem nada! Vocês tem o Pelé, eu tenho o Papa! Vocês tem o Pão de Açucar, o Papa Francisco está comigo!!!”. E por aí vai. Sem contar que Bergoglio é torcedor símbolo do meu time de coração, o San Lorenzo de Almagro.

 

            Sem dúvidas depois de Bento 16, sem um pingo de carisma, e apontado como simpatizante da inquisição e do nazismo, Francisco vem dando um banho de popularidade e aceitação. Reconhecido como humilde, como quem se identifica com os mais pobres, Bergoglio vem conquistando admiradores pelo mundo, inclusive em outras religiões.

 

            Mas essa semana, em Buenos Aires, perto da Catedral Metropolitana onde o Papa rezava suas missas, próximo de onde se encontram as Madres da Plaza de Mayo, que resistem pela memória de seus filhos desaparecidos durante a ditadura argentina, descobri um motivo pelo qual o Francisco não é unanimidade, mesmo com tanta patrióstia.

 

            Nada a ver com corrupções, desvios de ouro, nem pela compra irregular de papa-móveis, tampouco por algum caso de pedofilia tão recorrente no santo ofício, muito menos por ser adepto e bajulador de déspotas mundo afora.

 

            Conversando com uma amiga argentina, descobri que quando trabalhava na Catedral Metropolitana, o senhor Jorge Mario Bergoglio Sívori, o pop Francisco, se negava a ceder o banheiro pras Madres da Plaza de Mayo, durante as vigílias.

 

            Aliás, essa mesma amiga me passou referências que demonstram que a tensão entre Bergoglio e as Madres de Mayo é histórica e pública. Em uma entrevista concedida em 2014, pro programa Más Vale Tarde, a senhora Hebe de Bonafini, Presidenta da Associación Madres da Plaza de Mayo, conta que “Sin embargo, cuando las madres tomán la Catedral, ello (Bergoglio), cerró los baños … Yo tive que armar um baño con lona y con chapas...”.

 

            Em 2007, Hebe escreveu uma carta colocando Bergoglio no mesmo saco de Macri (prefeito de Buenos Aires e candidato a presidente da direita argentina), dizendo que eles são cúmplices da ditadura, porém em 2013 quando escreve pro então Papa Francisco, Hebe se mostra surpresa com o trabalho pastoral de Bergoglio, num quase pedido de trégua.

 

            Creio que criticar Bergoglio, é diferente de criticar o Papa Francisco, tanto que o jornal em que publico minhas crônicas não aceitou esse texto, justificando que se trata de uma denúncia que precisava ser mais bem apurada, vai vendo...

 

            A questão é que nos últimos dias que estive em Buenos Aires fiquei martelando: Porque o Papa não deixava as Madres da Plaza de Mayo ir ao banheiro?

 

            Acho que fiquei encucado porque de onde venho a gente aprende que é “nas menor que a gente descobre as maior”, “que quando o bixo pega a gente vê quem é quem” e imagino o perrengue que as mulheres, ainda mais senhoras, passam quando não encontram um banheiro.

 

            E assim, no buraquinho do dente, na pontinha da unha, o sacerdote dos pobres, o divino latino, o papa do diálogo, o carismático da vez, o orgulho no grito de gol, o torcedor símbolo do meu querido San Lorê, pois é, ele regulava o banheiro pras Madres da Plaza de Mayo, miguelava o banheiro a um dos maiores símbolos de luta e resistência popular da argentina e do mundo.

 

            Assim, o senhor Jorge Mario Bergoglio Sívori que fez voto de pobreza e sorri sua humildade como ninguém, mostra que desde os tempos de arcebispo era apegado a um trono, e por isso pode renegar qualquer privilégio, menos fazer o voto da anti-privada.  Que o diga as Madres da Plaza de Mayo.

 

 

Michel Yakini é escritor e produtor cultural

www.michelyakini.com

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