Ganha o mundo malungo!

 

Crônica reproduzida pelo site do jornal Brasil de Fato no link - http://brasildefato.com.br/node/33973

 

 

Colheita é bom, a gente merece e gosta. Viver só de espinho e furacão é osso!

 

22/01/2016

Por Michel Yakini

 

 

Cresci numa época em que ficar marcando na rua de cima, ou passar vacilando na viela, era a deixa pra tomar pedrada, sair na mão com a mulecada, ou dar um pinote pra evitar o prejuízo e não voltar chorando, senão era outro esculacho.

 

Estudei numa escola de outra vizinhança e vira-e-mexe tinha que resolver algum bairrismo. 'E agora...Tá na vila, cachorro, tá na vila!' (nessa época, chamar de cachorro não soava como elogio). O estranho é quando você se pega fazendo o mesmo. Um dia com um soco inglês, feito com uma ponta de prego, outro dia recorrendo ao amigo, que vinha armado pra escola, doido pra arrumar um debate.

 

Anos 90 era triste, ficava pensando o que faria até os 30 anos, já que viver depois disso era questão de sorte, pois mesmo sendo sossegado, vi e soube de muito amigo e conhecido que foi eliminado antes, ou foi em cana, ou ficou encadeirado. Valei-me meu pai Oxalá!

 

Agora 20 poucos anos depois, tô arrumando as malas pra ir conhecer mais três países: dessa vez Alemanha, Espanha e Portugal. Indo fazer meu trampo, falar de literatura e vender os livros, ou seja, rodando o mundo 'sem precisar de balde e vassoura', como diria Mirta Portillo. Nada contra quem precisou, respeito, mas teve um tempo que esse era nosso único passaporte e olhe lá.

 

Lembro quando fui morar em Curitiba pra estudar (outro ato improvável) e as pessoas diziam que só podia ser por ter aprontado com alguma menina, matado ou roubado. Hoje os vizinhos são curiosos pra saber como é Cuba, Paris, Inglaterra, Argentina, México. Parece que ficou mais simples, mas ainda distante.

 

E eu, como a maioria, que só sabia o que era andar de trem e busão, consegui até levar a minha pequena pra fazer um rolê nas terras portenhas meses atrás. Quem diria!

 

Até porque ninguém entende bem o que a gente faz. Sabe dos eventos, da arte,  cultura, os livros, a poesia, o sarau… 'ô do sarau, beleza?'. Mas na hora de afagar a terra, cavar os caminhos, aprumar, mexer o concreto, carregar os blocos, na hora da suadeira, é o silêncio que impera, lida comum.

 

Sem contar que tem uns gato pingado por aí, que só enxerga o vitrô e fica naquelas de tacar pedra, mas esses num tô nem vendo, porque todo calo é bolha que um dia há de virar casca.

 

Faço parte de uma roda infinita, que me abraça, aceita meu abraço e me dá fundamento, que começa em casa e se estende pra rua e continua em outras moradas, que dá carinho, gargalhada, choro e afeto sem dó. Roda que se olha e se cuida, seja de perto, de longe, sempre torce a favor, no erro e no acerto, na melhor e na pior.

 

E quando a mala tá pronta, muita coisa aguarda, mas o que é vivo pulsa, onde quer que a gente esteja, onde quer que esse giro nos leve. Se vou, é porque várias pessoas abriram os caminhos e ensinaram a ginga.

 

Vou ficar na estrada de 15/01 a 09/02, em Berlim, realizando atividades com a  pesquisadora Ingrid Hapke; depois Santiago de Compostela no VI Colóquio de Literatura Brasileira Contemporânea, a convite de Regina Dalcastagnè e Carmen Villarino; na livraria Ciranda, especializada em cultura lusófona, na

Universidade de Vigo e, por último, na cidade do Porto, em Portugal, com Dolores Biruel, uma das pessoas que na dificuldade, anos atrás, botou fé no meu trampo.

 

No Cóloquio, vou debater mercado editorial com representantes de editoras brasileiras e estrangeiras e prosear sobre o leite de pedra dos selos independentes, em meio ao monopólio e o jabá de vendagem das editoras graúdas.

 

Por lá haverá discussões sobre literatura negra e marginal, mas destaco a contribuição de Paulo Thomaz (UNB) que apresenta o tema: “Nem todas silenciam: Memória e pertencimento na narrativa de Sonia Bischain”. Reconhecimento justo pra essa romancista de mão cheia, linha de frente do Sarau da Brasa, que merece ter sua obra lida, comentada e divulgada.

 

Colheita é bom, a gente merece e gosta. Viver só de espinho e furacão é osso, e pra quem tinha que ficar ligeiro até pra ir na rua de cima, pra quem tem vizinhos que não encontram força pra ir além da esquina por conta da bigorna da vida, até que a gente tá chegando longe, viu!

 

Michel Yakini é escritor e produtor cultural

www.michelyakini.com

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