Andorinhas da Periferia

 

Crônica reproduzida pelo site do jornal Brasil de Fato no link -http://brasildefato.com.br/node/34158

 

 

Sou Música Periférica Brasileira…

(Yzalú)

 

16/02/2016

Por Michel Yakini

 

A palavra falada das quebradas vem fortalecida, não é de hoje, e a música, morada vital da nossa versação, sempre foi soberana desse mote, seja na marcação do bumbo do samba paulista, nas cantigas de terreiro, pela capoeiragem, no giro do jongo; enfim, nos muitos lamentos e glórias de palma e coro que mantém viva nossa poesia.

 

Coladinho vem o rap, culpado por germinar tantos saraus e slams. Música que deu luz à vozes femininas nas quebradas, com as clássicas Sharylaine, Rúbia RPW, na contundência de Dina Di, na levada preta-feminina de Cris SNJ, na pegada funk/soul de Negra Li, e passando por nomes como: Amanda Negra Sim, Odisseia das Flores, Priscila Fênix, Denna Hill, Yzalú, a revelação MC Soffia, entre tantas outras que cantam sob influência do hip hop.

 

Já os saraus receberam de presente jovens cantoras que começaram na bola de meia, cantando à capela, agradando a geral, mostrando composições e, hoje, articulam notáveis trabalhos. Falo de Camila Brasil, Fernanda Coimbra, Camila Trindade e Indy Naíse, manas que admiro ouvir nos saraus do Binho, Cooperifa e da Brasa e que miro com alegria a crescência dos seus acordes.

 

Cada uma a seu estilo, e também trançando composições, vem firmando espaço nos palcos da vida, musicando com banda, se prestigiando. Bebem do rap, de ritmos nordestinos, latinos, dos batuques afro-indígenas, da boemia do samba, interpretando clássicos da MPB e fervendo o caldeirão musical que as periferias de SP temperam há anos.

 

Fernanda Coimbra é presença em vários saraus da zona sul. Intérprete de mão cheia, passou a realizar shows com a banda Os Digníssimos cantando composições firmadas na boemia como é o caso de “Daria um samba”, letra de Jenyffer Nascimento e Daniel Fagundes. Ela também traz um repertório variado misturando boleros, desamores, pitadas de jazz, soul e samba.

 

Camila Brasil é local do Sarau do Binho onde sempre cola pra dar uma canja com seu violão e lançou, recentemente, seu primeiro EP. Destaco a faixa 'Reza', que versa o refrão em ritmo de ijexá: “eu vou acender uma vela / e por no canto da janela / deixar o vento soprar / pra esse amor desencantar”. Seu disco pode ser baixado no site www.camilabrasil.com.br.

 

Camila Trindade é uma das vozes mais aguardadas nos saraus que ela frequenta. É vocalista da banda 4ª Feira de Cinzas e, recentemente, se formou em Canto pela ETEC e anunciou matrícula na faculdade de Música. Também costuma postar vídeos com novas composições, em voz e violão, ou interpretando suas canções preferidas.

 

A caçula desse time é Indy Naíse. Essa baiana de Juazeiro, que estuda Regência Musical, apostou na carreira após ganhar um festival no Guarujá. É frequentadora do Sarau da Brasa, na Vila Brasilândia, onde fez um pocket show que tive o privilégio de estar. Além de composições próprias, ela interpreta nomes consagrados da MPB. Indico o vídeo da música “Ancestralidade”, parceria de canto e letra com Camila Trindade, samba do meu agrado, que diz: “meu cabelo crespo, nada é ruim / meu cabelo bom / rumo ao céu sem fim”.

 

Se ainda não conhece e não sabe quando é o próximo show, procure por elas na rede ou visite algum sarau. É capaz de encontrar essas cantantes suspirando a intenção da escuta, iluminando as ladeiras e fazendo valer nossa tradição onde a palavra tem um chamego forte com a música. Enquanto isso, elas seguem por aí, feito andorinhas, cantando pelas quebradas e, como o diz o poeta, acordando o bando todo.

 

Michel Yakini é escritor e produtor cultural

www.michelyakini.com

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