Ando cabrero com essas mina

 

Crônica reproduzida pelo site do jornal Brasil de Fato no link - http://brasildefato.com.br/node/32616

 

A palavra, cada vez que é dita, revive o uso inicial, e aí é o fio da navalha. Tipo o lance da mulata e do mulato, significado de mestiço, mas que é sinônimo de mula-preta. Esses termos ainda são muito usados, mas têm um rechaço enorme entre a negrada.

 

07/08/2015

Por Michel Yakini

 

Sou daqueles que quando comecei a beijar, contava pros muleque de boca cheia: “Fiquei com uma mina onti, maaaano...”. E nos primeiros namoricos, chegasse onde chegasse apresentava a garota assim: “Essa é tal pessoa, minha mina”.

 

Cresci bebendo das gírias que tanto reinam nas ruas e nos versos do rap, e pensava que “mina” era a forma feminina de “mano”, tipo “us mano pow e as mina pá”. Até porque é normal uma jovem da quebrada se autodenominar ou chamar outra jovem de “mina”.

 

Às vezes ficava pensando da onde vinha o tal “mano”. Primeiro: “Mano” em espanhol, quer dizer “mão” e por isso se chama de “mano” quem você tem o respeito de apertar a mão. Segundo: Se você aperta a mão, é porque considera como irmão, seu “hermano” no espanhol, então o hermano, virou “mano”, assim como o “você”, virou “cê” e por aí vai. Se considerar nossa origem latina, tem a ver né não?

 

Isso prevalece nas quebradas, onde o hip hop é fundamento e muitas referências vem dos Estados Unidos, então a gente pode ter adaptado o “man” deles pro nosso “mano”. “Yo man! Ei mano!”.

 

Mas e as “mina”? Se não é uma forma feminina de “mano”, de onde surge? Pra não ficar nessa de que veio da costela do macho, “mina” também pode ser uma abreviação de menina, ou de feminina. Será?

 

Esses dias, relendo o conto “Paulinho Perna Torta”, do João Antonio, me deparei com uma passagem em que o narrador, o tal Paulinho, está contando sobre os ensinamentos que recebeu de seu parceiro de fé, o Laércio Arrudão, na artimanha de dominar sua namorada e se tornar o cafetão dela, ele diz:

“A mulher ouve e não diz um 'a', nem sim, nem não, rabo entre as pernas. Mulher só serve para dar dinheiro ao seu malandro. Todo dinheiro. POR ISSO, ENTRE OS MALANDROS DA BAIXA E DA ALTA, AS MULHERES SE CHAMAM MINAS”.

Vai vendo…

 

Quando reli pensei na evidência histórica, porque o texto é ambientado em São Paulo, na Boca do Lixo, ali no Centro Velho, Bom Retiro, Santa Cecilia e Barra Funda, no início da década de 1950 e segue uma descrição fiel às características e costumes desse lugar.

 

Outra premissa é que muitas gírias têm como fonte a malandragem, dos que atuam na surdina, que já pagaram cadeia, na necessidade de criar códigos pra cada prosa, uma questão de sobrevivência.

Outro lance é o tratamento dado a “quem come da banda podre, que só berra da geral sem nunca influir no resultado”, como diria Plínio Marcos. Nesses casos, muita denominação surge da depreciação, como as palavras: negro, sapatão, bicha… que ao longo dos tempos foram ressignificadas e algumas até são usadas como afirmação de identidade.

 

É certo que a palavra “mina” também é utilizada de forma positiva. Tanto que muitas “minas” chamam seus paqueras ou namorados carinhosamente de “minos”, e pela autodenominação que já citei antes, mas quando li sobre a possível origem desse uso, foi tenso.

 

Tipo o lance da mulata e do mulato, significado de mestiço, mas que é sinônimo de mula-preta. Esses termos ainda são muito usados, mas têm um rechaço enorme entre a negrada.

 

A origem de cada palavra, a tal etimologia, cada vez que é dita, revive o uso inicial, e aí é o fio da navalha. Ficar pirando nas invenções de um escritor pode ser besteira, mas até no Dicionário Priberam (2011) consta: mina s.f. 15.Mulher que sustenta o amásio. 16.Amante de gatuno ou rufião.

Por isso, na bola de meia, ando cabrero com essa história das “mina”.

 

Michel Yakini é escritor e produtor cultural

www.michelyakini.com

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