A xepa da cultura em SP

 

Crônica reproduzida pelo site do jornal Brasil de Fato no link - http://brasildefato.com.br/node/33100

 

É preciso deixar de confundir nosso trabalho na cultura, o da periferia, com a militância de gabinete. Não esvaziar nossa busca por recursos justos e valorização com o xaveco da “parceria”, do “colaborativo”, do “jeito sustentável de fazer”.

 

 

01/10/2015

Por Michel Yakini

 

Vai vendo: a prefeitura de São Paulo, via Secretaria de Educação, está organizando um grandioso evento literário na cidade, o endinheirado Encontro Mundial de Inventividade Literária (Emil), que acontecerá em novembro, para afagar a pompa dos escribas de sempre, aliviar a crise das livrarias-jabás e manter o monopólio de vendas das editoras graúdas no balcão público.

 

O Emil, evento que prevê cerca de R$ 2 milhões de investimentos, tem a curadoria de Manuel da Costa Pinto. Ele é questionado desde a Feira de Frankfurt (2013) por ter sido o curador do Ministério da Cultura naquela ocasião, e ter se pautado principalmente nos interesses de mercado e no perfil de escritores que não corresponde a diversidade da literatura brasileira contemporânea, em detrimento das produções que estão em contraponto, como as literaturas negras, indígenas e das periferias.

 

Enquanto esses milhões vão estufar o bolso das famílias que formam o quarteto-fantasma editorial do Brasil, alguns professores batalham com os coletivos da cidade para realizar uma ação dentro do tal Emil, com um recurso minguado (cerca de R$ 200 mil) e direcionando ações aos professores que trampam nas quebradas, com feira de livros, apresentações e debates com os escritores/as das periferias.

 

Esses professores têm o meu respeito. São profissionais preocupados com a educação, com a aproximação entre palavra viva e leitores adormecidos. Mas, para gestão municipal, seguem minhas vaias.

 

A realização do Emil, nessa incoerência, demonstra o quanto o assunto literatura de quebrada continua na mesma, na margem. Como se a gente gostasse. Vale recordar que se afirmar na periferia é um ato politico e não um gosto pelo resto.

 

Nessa hora de silêncios, do deserto de contratações e investimentos, o secretário de Cultura da capital paulista, Nabil Bonduki, ao visitar a Feira Literária da Zona Sul (FELIZs), organizada pelo Sarau do Binho, garantiu que o edital Veia e Ventania, destinado aos saraus literários, divulgaria seus resultados, o que já aconteceu. Além de que o Programa Valorização das Iniciativas Culturais (VAI) foi o primeiro fomento das periferias, quase como um “não se esqueçam, sem meu projeto de lei vocês estariam pior”.

 

Quanto ao Veia e Ventania, depois de um ano de espera, se não tiver as contratações feitas de forma urgente, pode virar um mero cadastramento e ficar por isso mesmo (esperamos que não!). E sobre o Programa VAI ser considerado o primeiro fomento das periferias, isso é reafirmar a parte que nos cabe nesse latifúndio, né não, secretário?

 

Sabemos quantas cifras são destinadas aos programas de fomento na cidade, aos equipamentos pomposos e centrais, e a eventos que consolidam o monopólio da indústria cultural como o Emil, enquanto o Programa VAI é a xepa da distribuição de recursos pra cultura.

 

Sim, a Xepa da Cultura! Que distribui parcos caraminguás pros coletivos cobrirem o fosso de investimento nas quebradas, tipo mais-valia, sabe, secretário? E só nos resta comemorar a piedade dos parcos, para celebrar essa Xepa Cultural, a periferia, a sobra que sorri e agradece.

 

A realização incoerente do Emil pela Secretaria de Educação municipal, chefiada por Gabriel Chalita, e a lentidão da Secretária de Cultura com as nossas demandas, repete o xeque-mate da gestão-coturno de anos atrás. Quiçá seja até pior, pois agora tudo vem revestido de vermelho, professando gírias e gorfando diálogo.

 

É preciso deixar de confundir nosso trabalho na cultura com a militância de gabinete. Não esvaziar nossa busca por recursos justos e valorização com o xaveco da “parceria”, do “colaborativo”, do “jeito sustentável de fazer”, do “movimento ser novo”, do “vocês não tem código de barra”, do “tamo junto”, esse papo anda caduco. Já se passou mais de uma década, há coletivos beirando quinze, vinte anos de atividades, nossa literatura continua aquecida, praticando novas referências estéticas, de incentivo a leitura e a criação literária, mas a lorota é a mesma de sempre.

 

O pior: temo, que já já, no pleito eleitoral, tudo isso seja esquecido e comece o compartilhamento da carta de apoio da Cultura de Periferia, a pressão para fazer campanha pro menos pior, no assombro de Universais, Cidade Alerta, Fiespis e Botox Suplicy que vem por aí.

 

Enquanto isso, é aguardar a feira de bacana terminar. Pois quando os mesmos de sempre estiverem saciados, a gente corre para manguear nossa disputada Xepa Cultural, ignorando o futum da sobra e agradecendo humildemente por esse privilégio.

 

 

Michel Yakini é escritor e produtor cultural

www.michelyakini.com

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